Data de publicação: 16/03/2016
Fonte: WRI Cidades

Participaram do evento Eduardo Paranhos Sarmento Leite, diretor da Secretaria Municial de Mobilidade de Salvador (SEMOB); Diogo Pires Ferreira, Coordenador de Transportes do WRI Brasil Cidades Sustentáveis; Cíntia Freitas, Coordenadora de Relações Institucionais do WRI Brasil Cidades Sustentáveis; Laura Valente de Macedo, consultora do WRI Brasil; Fábio Mota, Secretário de Mobilidade de Salvador; e André Fraga, Secretário de Cidade Sustentável de Salvador.
Salvador, capital da Bahia, recebe nesta terça (15) e quarta (16) o seminário “Mais Transportes, Menos Emissões”, organizado pelo WRI Brasil, com apoio da Embaixada Britânica e da Secretaria Municipal de Mobilidade (SEMOB) da capital baiana. No primeiro dia, as apresentações mostraram exemplos de ações de mobilidade urbana que contribuem para a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) nas cidades, projetando o desenvolvimento sustentável.
O transporte coletivo da capital baiana é composto por ônibus urbanos e metropolitanos, táxis, mototáxis, vans, trem suburbano, ferry-boats e lanchas. Diariamente, são realizadas 4,6 milhões de viagens, sendo 44,2% em transporte coletivo, 32,8% em transporte não motorizado e 23% em transporte individual. Além disso, Salvador conta com ascensores, responsáveis por ligar a Cidade Alta à Cidade Baixa, que transportam 600 mil passageiros por mês. Já o metrô conta com oito estações ativas na linha 1 e tem 21 previstas para o sistema, que contará com duas linhas.
Eduardo Paranhos Sarmento Leite, diretor da SEMOB, apresentou as principais iniciativas da cidade. Um dos projetos ligados à sustentabilidade é o Bike Salvador, que integra o movimento Salvador Vai de Bike. São cerca de 600 mil viagens realizadas, o que representa uma economia de 215 toneladas de CO². Entre as conquistas na mobilidade de Salvador, estão a renovação da frota, a criação do Centro de Controle Operacional (CCO), o aplicativo Cittamobi, novos pontos de recarga para o Salvador Card e a instalação de módulos de conforto. “A frota de coletivos de salvador hoje é uma das mais novas do país, com idade média de três a sete anos. Todos os novos ônibus possuem motor Euro V, acessibilidade para cadeirantes e monitoramento por GPS. Em teste, 30 coletivos foram equipados com wifi”, detalhou o diretor.
Com o CCO, que monitora o transporte coletivo por ônibus 24 horas por dia, em tempo real, foi possível identificar e emitir mais de duas mil autuações. Além disso, possibilita a interação direta da população a partir do aplicativo, que disponibiliza os pontos mais próximos, as linhas oferecidas em cada parada, a previsão de chegada dos ônibus e se o coletivo é adaptado para pessoa com deficiência. “Tira da prefeitura a exclusividade da informação e permite a participação ativa da população. Já foram registrados mais de 10 mil reports dos usuários”, completou. Para finalizar, Leite citou o projeto Corujão Salvador, que atende a demanda dos deslocamentos no período da madrugada. São 19 linhas que operam entre meia-noite e quatro horas da manhã.

Novas tecnologias
Para apresentar uma possibilidade para aprimorar o transporte coletivo, Jeferson Peres, Coordenador Institucional de Vendas de Ônibus no Brasil da Scania, falou sobre o consumo de combustível. “Em 2030, 60% da população viverá em grandes cidades. O futuro das cidades é a mobilidade urbana sustentável. É fundamental para evitar o caos. Cidades inteligentes, como é o caso de Salvador, já estão discutindo o tema para evitar os danos”, disse.
Na visão da Scania, são três os principais desafios urbanos: resíduos, transporte público e saúde pública. E a solução apontada pela empresa é o biometano, ou biogás, que é produzido a partir do lodo sanitário, resíduo orgânico residencial ou da indústria alimentícia. Com o uso do biogás, há uma redução de até 85% de emissões de CO² na comparação com o diesel e o custo do quilômetro rodado é 28% menor. Para fins de investimento na frota, o veículo custa 20% a mais. “As cidades brasileiras estão procurando alternativas para fazer com que a conta feche e estamos trazendo mais uma opção para o transporte sustentável”, concluiu Peres.
Mudanças necessárias
Falar sobre redução de emissões de gases de efeito estufa pode parecer um plano para o futuro, mas, na verdade, é bastante urgente. Defendendo essa tese, Laura Valente de Macedo, consultora sênior do WRI Brasil, falou sobre a relação entre mudanças climáticas, cidades e desenvolvimento de baixo carbono. A especialista enfatizou a importância da visão da gestão pública para esse processo: “Falar em Secretaria Municipal de Mobilidade em vez de Secretaria de Transportes já é um grande passo na direção da sustentabilidade da cidade”.
Estudo do BID diz que, para cada dólar investido em adaptação, evita-se gasto o de 10 dólares na remediação de danos causados pelas mudanças climáticas. “A partir do momento em que você melhora a gestão pública, consegue trabalhar melhor em função das mudanças climáticas e torna as cidades mais resilientes”, comentou a consultora. A preocupação, contudo, não deve ser apenas com as mudanças climáticas naturais, que fogem ao nosso controle, mas com aquelas causadas pela ação humana. Consumo e geração de energia de combustível fóssil, agricultura e desmatamento são algumas das principais causas para o aumento de emissão de gases de efeito estufa. Se nós não repensarmos nosso padrão de consumo, não vamos contribuir para mudar a realidade”, disse Laura. Até 2025, o Brasil tem a meta de reduzir suas emissões em 37% – todas as ações, de qualquer setor, que tenham esse enfoque estão contribuindo para o objetivo do país.
Cíntia Freitas, Coordenadora de Relações Institucionais do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, lembrou que 2015 foi o ano mais quente da história do planeta desde que começaram os registros. No entanto, a temperatura média de fevereiro de 2016 já foi a maior para o mês desde que se têm os dados. Ou seja, é possível que esse ano ultrapasse o anterior. “Setenta por cento das emissões de GEE acontecem nas cidades. Por isso, os centros urbanos estão procurando alternativas. Estamos correndo contra o tempo. Enquanto as cidades buscam soluções no nível local, também devem compartilhar ideias de sucesso com outros projetos”, disse. Salvador é um desses exemplos. Membro do C40, grupo global de cidades que se reúnem para diminuir os efeitos da poluição no clima mundial, também já se comprometeu com o Compacto de Prefeitos. Tendo em vista que a maior parte das emissões vem dos transportes, a SEMOB tem um papel fundamental com as suas ações. “Gostaria de agradecer a Embaixada Britânica por nos permitir trazer líderes visionários para o Brasil. Recebemos Ken Livingstone, ex-repfeito de Londres, e especialistas da Transport for London, Future Cities Catapult, Transport Systems Catapult, entre outros. O projeto também proporcionou estudos, como o da Steer Davies Gleave. Esperamos que essas ideias possam inspirar Salvador a fazer ainda mais. A missão do WRI é mover a sociedade urbana para promover mudanças para as gerações futuras, e esperamos continuar apoiando a cidade nesse sentido”, concluiu Cíntia.
Exemplo positivo
A fim de inspirar as cidades brasileiras, Diogo Pires Ferreira, Coordenador de Mobilidade Urbana do WRI Brasil Cidades Sustentáveis, apresentou ações em Londres que servem como exemplo para os planos que estão em andamento. Um dos exemplos é o projeto que estimula os caminhos a pé pela cidade. Para o especialista, Salvador é uma cidade que dispõe de paisagens que favorecem uma iniciativa como essa. “Os desafios que enfrentamos na elaboração dos projetos, como o engajamento da população, são semelhantes em todas as cidades”, analisou.
Outros exemplos podem ser citados. Como é o caso de Joinville, uma das parceiras do WRI Brasil Cidades Sustentáveis. Amanda Máximo, arquiteta na Fundação Instituto de Pesquisa e Planejamento para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville (IPPUJ), falou sobre como foi a experiência de construção do Plano de Mobilidade (PlanMOB) da cidade, que acabou sendo instituído por decreto. O desenvolvimento do projeto foi coordenado pela IPPUJ, com apoio técnico do WRI Brasil Cidades Sustentáveis e da Universidade Federal de Santa Catarina, e com participação da população.
A cidade, que tem 562 mil habitantes, tem o costume de deslocamento por bicicleta e a pé. Uma pesquisa de origem e destino foi realizada em 2010 e, de acordo com os resultados, 11% das viagens eram realizadas em bicicleta e 23% a pé. Enquanto isso, o uso do transporte coletivo era de 24% e de transporte motorizado individual era de 41%. As ações propostas no PlanMOB, entregue em março de 2015, têm prazo até 2030, mas devem ser revisadas em dez anos. As metas incluem dobrar o número no transporte coletivo, chegar a 20% em bicicletas e reduzir pela metade o uso de transporte motorizado individual. “Fazer o plano de mobilidade foi um exercício de pensar nas vocações de deslocamento da nossa cidade para buscar a equidade nos meios de transporte e melhorar os deslocamentos da população”, comentou Amanda.
Fruto do PlanMOB, Joinville ganhou, em 9 de março de 2016, o Plano Diretor de Transportes Ativos, que estabelece as diretrizes de infraestrutura urbana e segurança viária para qualificar o transporte a pé e aumentar o índice de deslocamentos de bicicleta. Para estabelecer a rede prioritária que atenderá as necessidades cicloviárias e de caminhabilidade do município, foi utilizado o manual de Desenvolvimento Orientado para o Transporte Sustentável (DOTS), desenvolvido pelo WRI Brasil Cidades Sustentáveis. “Acredito que devolver a cidade para as pessoas seja a grande finalidade de transpor os desafios da mobilidade urbana”, concluiu Amanda.
Inventário
Para planejar as ações, é preciso saber o quanto a cidade deve melhorar. Um dos parâmetros é o inventário dos gases de efeito estufa que, em Salvador, foi realizado dentro do projeto da Embaixada Britânica, com o apoio do WRI Brasil, da Pangea Capital e do ICLEI – Local Governments for Sustainability (Governos Locais para a Sustentabilidade).
Roberto Strumpf, consultor da Pangea Capital, apresentou alguns dos resultados do estudo. A metodologia utilizada foi a GPC, que tem, entre os objetivos, estabelecer a base para um plano de ação climático e demonstrar a importância do papel das cidades rumo à economia de baixo carbono. Os resultados mostram que 88% das emissões em Salvador são de responsabilidade direta do município. Dos 3,7 milhões de toneladas de CO² equivalente emitidas, 74% vieram do transporte. Desses, 74% do transporte terrestre. Por fim, 55% do total de emissões do município em 2013 vieram do transporte rodoviário. “Comparar números absolutos é um grande erro, pois cada cidade tem um tamanho e um perfil. É muito importante usar indicadores de emissão relativa para comparar duas cidades equivalentes”, explicou Strumpf. Sendo assim, utilizando dois indicadores, Salvador tem 1,27 de toneladas de CO² equivalente emitidos por habitante e 5,3 toneladas emitidas por km².
Com esse resultado nas emissões relativas, na comparação com outras cidades, a capital baiana aparece bem no ranking. Rajkot, na índia, um dos exemplos apresentados, tem 2,13 por habitante e 26 mil por km². Já o Rio de Janeiro tem 3,47 e 18.236, respectivamente. Strumpf apresentou ainda possibilidades de melhoria, que incluem dar escala ao processo de sensibilização e capacitação a respeito de riscos e oportunidades das mudanças climáticas, aprimorar o sistema de coleta de dados municipais e dar continuidade ao ciclo de gestão de emissões.
Informações em debate
Os participantes do seminário foram convidados a debater sobre as oportunidades de Salvador a caminho da redução das emissões de gases de efeito estufa a partir de melhorias na mobilidade urbana. Para embasar a dinâmica, Cláudia Ramirez, consultora da Steer Davies Gleave, apresentou alguns exemplos levantados no estudo de intervenções de políticas inovadoras no Reino Unido voltadas à realidade brasileira, focado na mobilidade de Florianópolis e Salvador. Estratégias para pedestres, bicicleta como modo de transporte, redução das viagens de veículo individual motorizado, qualidade e confiabilidade do transporte público e reconhecimento e melhoria no transporte de carga foram as necessidades brasileiras identificadas.

(Foto: Mariana Gil WRI Brasil Cidades Sustentáveis)